CEOCP — A RARET do Montijo

Já ouviu falar na RARET — estação emissora de rádio eternizada pela série da RTP e da Netflix, Glória? 

Sabia que o Montijo tem nos limites do seu concelho um complexo muito similar, quer nas suas estruturas, quer na sua história, usos e desfecho? Pois é, o Centro Emissor de Onda Curta de Pegões (CEOCP), situado no concelho do Montijo, propriedade da RTP, encontra-se atualmente num estado de notório abandono.

Este vasto complexo, estendendo-se por uma área de 90 mil metros quadrados, e é hoje uma sombra do que já foi, no entanto, ainda é possível apreciar a multiplicidade de edifícios que neste terreno ainda sobrevivem.

Dentro destes edifícios, outrora majestosos, encontra-se um tesouro de equipamentos históricos, viaturas icónicas da rádio, guiões de teatro radiofónico datilografados e até já lá foram encontrados discos raros de figuras proeminentes como Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti, dos quais foram prensados poucos exemplares.

Além disso, uma vasta quantidade de material histórico não identificado preenche os espaços abandonados, representando uma rica herança cultural que se desvanece no esquecimento.

Numa investigação realizada no interior do complexo, foram descobertos até mesmo dados pessoais de trabalhadores, alguns datando do período do Estado Novo. Essas descobertas são alarmantes, apontando para uma negligência não apenas na preservação do património material, mas também na salvaguarda da memória histórica associada a este local.

Na verdade, grande parte da comunidade aldeana não está a par deste Centro nem da sua relevância histórica.

Este complexo foi inaugurado em 1954 como o Centro Emissor Ultramarino da Emissora Nacional, para melhorar as condições técnicas de transmissão para as antigas colónias portuguesas e as comunidades de nacionais espalhados pelo mundo. Em 1966, foram adicionados quatro novos emissores de ondas curtas.

Este complexo desempenhou um papel crucial na estratégia do Estado Novo para comunicar a “verdade de Portugal” em várias línguas, numa época em que as pressões internacionais para resolver as questões coloniais eram intensas devido ao agravamento dos conflitos em África.

No entanto, o que outrora foi uma instalação vital e imponente agora encontra-se abandonado e em ruínas. O Bairro de S. Gabriel, construído em 1951 pelo arquiteto Francisco dos Santos para acomodar os funcionários do Centro Emissor Ultramarino de Onda Curta, está agora completamente desabitado. Embora algumas fontes mencionem que este bairro estava vazio desde o 25 de Abril, os Censos de 2001 indicam que ainda havia cerca de 20 residentes.

No entanto, desde a desativação do Centro de Pegões em 2011, não há mais moradores, transformando-o num verdadeiro “bairro fantasma”.

Este bairro possui 22 habitações, uma escola, uma cantina, uma igreja e um parque infantil, mas estes lugares foram deixados ao abandono. Algumas casas parecem ter sido habitadas recentemente, enquanto outras estão em ruínas há muitos anos.

A igreja local, vandalizada recentemente, é um testemunho silencioso da passagem do tempo e do abandono que assola este lugar.

Em 2017, a RTP tinha planos de vender e reabilitar vários edifícios, incluindo o Centro de Pegões, com a esperança de arrecadar 1,8 milhões de euros. No entanto, a realidade atual é de abandono total. O Estado Português é o proprietário deste bairro majestoso, mas não tomou medidas para preservar a sua história e a memória das famílias que ali viveram.

Ao percorrer este lugar, é impossível não se sentir impactado pela majestade das casas vazias e pelo contraste entre o passado glorioso e o presente decadente. O Bairro de S. Gabriel, uma vez habitado por famílias e crianças, agora é um local abandonado que clama por preservação e revitalização. É uma história silenciosa de um passado glorioso e de um presente negligenciado que merece ser contada.

Apesar das tentativas de alerta por parte de trabalhadores e partidos políticos, a administração da RTP e o Ministério da Cultura ainda não responderam eficazmente ao estado de degradação deste local histórico.

O futuro do Centro Emissor de Onda Curta de Pegões permanece incerto, com a RTP esclarecendo que “não tem prevista outra utilização do Centro e o terreno, tal como alguns outros, está identificado para potencial alienação”. Esta situação levanta questões sobre o papel do Estado na preservação do património cultural e na salvaguarda da memória coletiva.

Seria de esperar que um local com tanta história e importância cultural fosse alvo de um esforço conjunto para a sua preservação e revitalização ou que pelo menos fosse incluído no roteiro de apreciação de património do concelho, inclusivamente nos roteiros pedagógicos-escolares.

O Bairro de S. Gabriel, com as suas majestosas casas e a sua herança única, merece uma nova vida e uma oportunidade de contar a sua história de forma mais vibrante. A negligência que enfrenta atualmente não condiz com o valor que este local tem para a cultura e a história de Portugal e do Montijo.

Fica um exemplo que certamente dará uma boa aventura para os mais aventureiros e destemidos.

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