Fernanda Fragateiro, artista plástica: “Eu adorava ir à pesca com o meu pai.”

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Na sua extensa obra, Fernanda Fragateiro (Montijo, Portugal, 1962) desenvolve um trabalho fortemente apoiado num interesse por práticas artísticas e arquitetónicas da vanguarda do séc. XX. Um interesse que muitas vezes ganha forma através de alterações subtis de paisagens ou objetos existentes, que naturalmente revelam histórias contidas em si mesmos. Trabalhando sobre uma vasta gama de materiais e referências, a sua obra conserva um estilo claramente definido, resultado de uma estética minimalista no que toca à forma, à cor e à textura da superfície. Repensa e testa as práticas modernistas através da investigação continuada com base em matéria de arquivo, materiais e objetos. Os seus trabalhos são parte de diversas coleções institucionais e privadas.

Conversámos com a artista montijense para descobrir mais sobre o seu percurso, memórias e relação com a cidade:

Já não vive no Montijo. Qual é a sua relação com a cidade? De que modo influencia a sua obra?

Vivi no Montijo numa pequena casa num pátio no Bairro dos Pescadores, até aos 15 anos. Após o 9º ano, o meu interesse pelas artes visuais levou-me a estudar na Escola António Arroio, em Lisboa, uma escola secundária especializada no ensino das artes. Desde então tenho vivido sempre em Lisboa, numa permanência alternada com viagens de trabalho por vários continentes. Acho que a paisagem ribeirinha e a liberdade com que vivi na minha infância são fontes de inspiração para o meu trabalho.

O seu pai era pescador. Guarda alguma memória especial disso? Qual a sua relação com o rio e com o mar?

Tenho estado a registar algumas memórias da minha vida em criança. Essas memórias estão muito ligadas ao meu pai, que foi um grande companheiro. O desaparecimento do meu pai, após um naufrágio no Tejo, provocou em mim uma grande revolta e esse acontecimento afastou-me do Montijo. A negligência das autoridades nas buscas efetuadas, muitas horas depois dos alertas e pedidos de ajuda da família e dos camaradas pescadores, deixaram em mim marcas profundas.  A minha relação com o rio Tejo é muito intensa e de grande amor. O rio foi um lugar mágico na minha infância e vejo-o como um dos elementos estruturantes e mais importantes deste território da grande Lisboa, que temos de salvaguardar. Quando os pescadores saem para a faina no rio, dizem que vão ao mar.

Mas, voltando ás minhas memórias, lembro-me do armazém do meu pai junto ao rio. Era um lugar de trabalho, mas também lugar de encontro e de partilha. Ali vi chegarem corvinas gigantes e cozinharam-se as melhores caldeiradas do mundo: o peixe fresco chegava do rio e era amanhado e cortado em postas e cozido com batata, cebola, tomate, numa grande panela de alumínio sobre um fogareiro no chão. A refeição era partilhada pelos pescadores e amigos do meu pai, quase tudo homens. À sua maneira, o armazém era também um pequeno centro cultural, onde se partilhava conhecimento. Entre o armazém e o rio existiam os esteiros que, infelizmente, foram sendo aterrados. Lembro-me dos pequenos barcos em terra virados ao contrário para serem calafetados, restaurados ou pintados. Para as crianças, estes eram abrigos onde nos podíamos esconder, ou brincar às casinhas: canoas, bateiras, catraias e traineiras. A traineira, do meu pai chamava-se “Era Assim”, um nome que sempre me intrigou e que quando ia ao mar, levava sempre dois ou três pescadores aos quais se juntavam outros amigos. Eu adorava ir à pesca com o meu pai. Cheguei a manobrar o leme durante noites estreladas, fazer pesca ao “cerco” de madrugada, apanhar enguias e pequenas solhas que me escorregavam entre as mãos. Lembro-me de vender a minha pequena pescaria à Tia Beatriz, dona da pequena mercearia que existia na minha rua. Hoje, penso no rio como um lugar de vida e de como podemos usufruir da sua margem, da beleza das suas espécies vegetais e animais, da sua luz e brisa, mas de uma forma amável e com sentido de troca. O rio dá um belo vazio que reflete o céu, dá sustento e possibilidade de atravessamento, mas nós temos que cuidar desse património e não o podemos privatizar ou transformar numa monocultura, num parque temático. Para o Montijo, o rio é um património muito valioso. E eu gostaria de contribuir para revelar o valor da sua paisagem natural, que também é paisagem cultural. 

O que significou para si ganhar o prêmio autores para melhor exposição de artes plásticas em 2018?

A grande satisfação de ter recebido esse prémio foi ele ter sido atribuído a uma mulher artista. Em trinta e oito prémios atribuídos ás artes visuais, só seis mulheres receberam este prémio da AICA, o que me honrou, mas também me alertou para a brutal falta de reconhecimento que as mulheres artistas têm tido. E não nos podemos esquecer que essa descriminação levou, em muitos casos, à desistência de muitas artistas, porque sem reconhecimento não existem convites para exposições, não existem vendas, resta a invisibilidade. Dediquei este prémio a duas mulheres feministas que muito me inspiram: a minha mãe Josélia e a minha filha Sofia.

A Arte é um meio para comunicar e questionar. O que nos diz a sua Arte?

As minhas intervenções artísticas no espaço público dizem que eu estou mais interessada em criar vazios do que em criar objetos. É muito comum eu recusar convites para produzir objetos escultóricos para o espaço público.  Em vez disso, trabalho no sentido de criar lugares que as pessoas possam usar e que potenciem a continuidade e a comunicação entre pessoas e espaço, e isso faz-se melhor usando a horizontalidade como estratégia de ocupação de espaço. Costumo pensar que, no espaço público, as coisas verticais são as árvores e os candeeiros e tudo o resto deve ser horizontal.

Os espaços e os seus materiais parecem ser um dos seus maiores interesses. Até que ponto os espaços influenciam a maneira como as pessoas vivem ou as pessoas é que influenciam mais as características dos espaços?

O meu maior interesse como artista é ‘desenhar espaços de liberdade’, e isso está em absoluta continuidade com o núcleo do que sempre me interessou no espaço. Se tivesse de indicar em poucas palavras algo do que julgo ter compreendido sobre o espaço é a possibilidade da experiência e da abertura do pressentimento da liberdade que é essencial em cada lugar. ‘direito ao tempo’ e ‘direito ao espaço’ (que não são senão dois modos de declinar os nomes da liberdade). A cidade é um processo contínuo que deve ser muito flexível. Uma cidade é feita de múltiplas cidades… e as pessoas é que as ativam e devem fazê-lo de uma forma participativa e critica. O que faz mais bela uma praça é um grupo de pessoas a conversar, a dançar, ou duas pessoas a namorar. Os lugares bem desenhados são os que potenciam bons acontecimentos. Pessoalmente interessa-me muito trabalhar o plano do chão, porque nós estamos sempre em contacto com o chão. Só o céu é maior que o chão. Talvez por isso escolhi trabalhar no desenho da calçada que em breve vai aparecer na cidade, em dois projetos realizados em colaboração como arquiteto Rui Mendes.

Ao passear pelo Montijo podemos ver muitas casas velhas a necessitar de recuperação. Se tivesse oportunidade de criar uma obra de arte sobre isso, o que faria?

O Montijo vive uma realidade que é comum a muitas cidades: a cidade desenvolveu-se num perímetro fora do antigo centro e este velho centro foi sendo abandonado. Mas esse lugar da cidade velha é um lugar de memória e ao ver as casas e os espaços comerciais em ruína e abandono sinto que as memórias estão também a ser abandonadas. É urgente fazer as pessoas regressarem e reabilitarem essas velhas casas e lojas, porque elas têm um grande potencial. Esse difícil trabalho tem de ser feito através de políticas públicas em diálogo com os privados. Os privados não podem ver as suas propriedades como ativos financeiros, mas sim como bens que devem contribuem para o bem comum. Se contribuirmos para a destruição do bem comum, estamos a cavar a nossa própria sepultura.  A melhor obra de arte seria a reabilitação de um pequeno edifício, de um armazém ou de uma loja e que essa reabilitação fosse usada para fins públicos, por exemplo para a criação de um gabinete da cidade, aberto à comunidade e onde esta pudesse acompanhar e participar nos planos de reabilitação pensados para o futuro ou em curso.  O que me interessa é que o meu trabalho gere pensamento critico. Não me interessa usar a arte ao serviço da celebração, porque o que se celebra hoje, pode ser destronado no futuro. Temos o recente exemplo do destronar de velhas estátuas, porque elas representam realidades do passado que hoje são inaceitáveis. Seria interessante contar quantas estátuas existem no espaço público e quantas delas representam mulheres. A violência da representação do poder no espaço público, não só não me interessa, como é para mim um motivo de combate.

Ser artista plástica em Portugal pode bem ser considerado um enorme desafio. É muito difícil começar a expor nos museus de Europa? Tem algum conselho para os estudantes de Belas Artes?

A dificuldade de ser artista em Portugal é a mesma dificuldade que uma pessoa mais pobre enfrenta para ser o que deseja ser. A arte faz parte de um circuito e está inserida em estruturas de poder onde são os países mais ricos que têm mais espaço para se exprimir, para se movimentar, para disseminar as suas produções. Embora na Europa existam muitos museus e espaços culturais de cariz público, o que facilita uma circulação mais democrática da arte, o poder dos países ricos é uma realidade que nos condiciona. No entanto, apesar das nossas dificuldades, existe um grande grupo de excelentes artistas contemporâneos portugueses, reconhecidos internacionalmente. As artes visuais, a poesia, a arquitetura são uma força no nosso país e estão profundamente comprometidas com processos de mudança social.

O meu conselho para os jovens estudantes de arte é que se sintam livres para pensar e produzir pensamento sem se subjugarem ás lógicas dos mercados. E sobretudo que encontrem formas de trabalhar e de mostrar o seu trabalho de forma a envolver praticas comunitárias. Quando lidamos com a escassez temos de nos unir ainda mais e ser ainda mais solidários, para criar uma dinâmica. As dinâmicas criam-se em coletivo, em colaboração, no sentido de reclamar junto dos poderes condições para trabalhar e partilhar processos de trabalho. Todas as autarquias deviam promover bolsas para residências artísticas internacionais, ateliers para artistas, porque é na criação de uma rede de contactos com outros artistas, com curadores, críticos de arte e também cruzando outras áreas de pensamento, que se faz o caminho.

Obra The Reserve of Things in Their Latent State, 2017

Gosta de usar o aço e o espelho tal como na obra “Caixa (Desmontagem)” que faz parte da Coleção Berardo. Interessa-lhe o exercício de mimese que o espelho oferece?

Talvez o uso das superfícies refletoras seja uma influência do rio Tejo. O que é o rio senão uma grande superfície refletora, um grande vazio em permanente mudança, aberto à transformação? Para mim o rio é um grande espaço de liberdade. A água foi o nosso primeiro espelho. Onde percebemos que temos um corpo e que esse corpo se insere no mundo e somos matéria e imagem. Trabalhar com superfícies refletoras é uma forma de conseguir múltiplas leituras, impedir a cristalização da imagem, uma espécie de permanente inacabado. Uma superfície refletora interessa-me porque me devolve uma imagem. Uma imagem que também me observa.

Gosta muito de jardins. Qual é o seu jardim favorito? Em que jardim gostaria de ver uma obra sua?

Os jardins são permanentes inacabados e estão plenos de vida que se manifesta acima do plano do chão e se desenvolve abaixo do plano do chão. Gosto dessa intensidade das plantas a crescer ao amanhecer, ao meio dia, ao entardecer, ao anoitecer e a multiplicação de tudo isso ao longo das estações do ano. Mais do que fazer uma obra para um jardim eu gosto de pensar e desenhar um jardim enquanto escultura. O meu último projeto desta natureza foi feito em colaboração com o arquiteto João Pedro Falcão de Campos para a envolvente do Liceu Camões, em Lisboa. É um jardim para o usufruto de todos, mas é sobretudo um gesto politico, de transformação, de abrir a escola à cidade e abrir a cidade à escola. Ou seja, aqui a obra de arte é o gesto, o pensamento, do qual nasce a construção.

Quais são as suas referências artísticas?

As minhas referências atravessam toda a história da arte. Interessam-me especialmente os movimentos artísticos ligados a momentos revolucionários, como o Movimento Moderno, quer na arte quer na arquitetura, e também a produção artística dos anos 60 e 70, onde se criou uma grande rutura com o passado e se abriu um grande espaço de liberdade. São os artistas que questionam e que experimentam, aqueles que mais me interessam. Estou também muito interessada no trabalho de mulheres artistas e arquitetas, que não tiveram o relevo que mereciam. Sinto o dever de voltar a elas porque as suas ideias devem ser resgatadas. 

Visita o Montijo? O que acha da comunidade artística no concelho do Montijo? 

Vou sempre ao Montijo, normalmente ao fim de semana, para estar com a minha mãe e o meu irmão. Habitualmente vamos passear para sítios junto ao rio, mais tranquilos e desconhecidos da maior parte das pessoas e que conheço desde criança. Verdadeiras joias na nossa paisagem natural. A pergunta é como proteger a magia desses sítios tão belos e únicos e poder torna-los lugares da cidade e oferece-los para desfrute das pessoas sem os transformar em simples comodidades para consumo rápido e descartável? Só espero que a doença dos passadiços não ataque a cidade do Montijo e que o valor das coisas simples sobreviva e seja usado para construir futuro.

Desde há 4 anos, quando fiz uma exposição na Galeria Municipal e uma intervenção na Capela de Santo António, que o Presidente Nuno Canta me convidou para colaborar com a CMM, na reabilitação da Praça 1º de Maio e do Jardim Miguel Pais, trabalho que tem sido desenvolvido em colaboração com o arquiteto Rui Mendes e com a autarquia. Mas é preciso criar mais comunidade artística no Montijo e dar espaço aos que já existem, os que aqui nasceram, os que aqui vivem, os que querem vir e os que estão de passagem. A arte não tem fronteiras.

A arte é ou não é elitista e como é que esta ideia convive com a noção de cultura de massas?

A arte não é elitista. Cada vez mais ela é difundida através de Instituições de carácter público e está cada vez mais presente na educação. Mas, arte contemporânea é uma linguagem com especificidade própria e tem de ser estudada para ser melhor compreendida.  A arte tem o poder de atravessar todos os territórios do pensamento, de os ligar e criar cruzamentos inesperados que nos dão uma compreensão do mundo, ativando todos os nossos sentidos, que serão bem mais do que  cinco. A arte dá-nos a possibilidade de estar de alerta, de descoberta e de abertura ao mundo que precisamos para viver. Temos também de pensar que a produção artística tem uma forte componente laboratorial, de experimentação, tal como a ciência. Muitas vezes essa pesquisa não é imediatamente acessível, mas tem em si um sentido de futuro. Para mim a arte é para todos, e é nesse sentido que dedico muita energia a projetos em espaços urbanos e naturais, pensados enquanto espaços públicos e livres, abertos a todos. Ao mesmo tempo mantenho a minha relação de trabalho com galerias de arte, colecionadores e museus e cada vez me interessam mais os desafios para pensar, colaborar, fazer.

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