Rua José de Almada Negreiros: pintando a modernidade

Não é segredo nenhum o talento que marcava a vida de Almada Negreiros e as suas obras refletem uma visão de modernidade. Na rubrica desta semana, relembramos este tão importante artista que marcou a nação portuguesa.

José Sobral de Almada Negreiros nasceu a 7 de abril de 1893, em Trindade, São Tomé e Príncipe. Filho primogénito de António Lobo de Almada Negreiros, tenente da cavalaria de Aljustrel e administrador do Concelho de São Tomé, e de Elvira Sobral de Almada Negreiros, uma mestiça que viria a morrer passados três anos. A sua infância foi passada em São Tomé até 1900, ano em que seu pai é destacado para ficar ao encargo do Pavilhão das Colónias na Exposição Universal de Paris.

Em tenra idade, torna-se aluno interno, com o seu irmão António, do Colégio Jesuíta de Campolide, em Lisboa. Ali permanecem até à extinção do mesmo, em 1910, proveniente da Implantação da República. Desde cedo que se dedicou à arte e à escrita, sendo conhecido pelos seus inúmeros desenhos impactantes da arte visual portuguesa. Mas, como começou esta carreira promissora?

De 1910 a 1920

Almada Negreiros fez uma passagem curta pelo Liceu de Coimbra, inscrevendo-se, em 1911, na Escola Internacional, em Lisboa. Foi durante o tempo em que frequentou o ensino neste meio que publicou as suas primeiras caricaturas e os seus primeiros desenhos. Em 1912, integra e redige o primeiro seu jornal manuscrito A Paródia e o expõe na I Exposição dos Humoristas Portugueses.

Em 1913, elabora uma exposição com 90 dos seus desenhos, na Escola Internacional. Compareceu ainda na II Exposição dos Humoristas Portugueses e escreve a sua primeira obra poética, bem como elabora o seu primeiro bailado (O sonho da rosa). É também neste ano que começa a alargar os horizontes à sua criatividade e começa a colaborar regularmente com o semanário monárquico Papagaio Real.

Em 1915 escreveu a sua novela A Engomadeira (que só viria a ser publicada em 1917) e o seu poema A cena do ódio (que só seria publicado parcialmente em 1923). Colabora na primeira edição da Revista Orpheu e publica ainda o Manifesto Anti-Dantas e por extenso.

Trabalhou com afinco, desde sempre, pela sua arte e pela arte que considerava importante firmar em território nacional. Foi neste contexto que defendeu publicamente Amadeu de Souza-Cardoso, através da sua obra I Exposição de Amadeu Souza-Cardoso (1916). Convive de perto com artistas como Santa-Rita, deixando-se guiar por uma perspetiva mais futurista da arte.

Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros

Em 1917 elabora, no Teatro da República, a conferência Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do século XX e colabora ainda ativamente com a revista Portugal Futurista. É ainda em 1918 que o artista assume a liderança de um grupo de bailado amador, no qual desempenha cargos como argumentista, cenógrafo, diretor de bailado e até bailarino. Por consequência da morte prematura de Santa-Rita, Almada Negreiros refugia-se em Paris no ano de 1918.

Entre 1919 e 1920, segue os seus estudos de pintura em Paris, enquanto trabalha como dançarino de cabaré e empregado numa fábrica de velas. É durante este tempo também que acaba por redigir muitos textos e grafismos que viram a ficar célebres, como é exemplo o “autorretrato“. Retorna a Portugal em 1920, participando em conferências como A invenção do dia Claro e a III Exposição dos Humoristas Portugueses. É também em Paris que a sua obra se aproxima mais do neoclassicismo, vanguarda que adota depois de confessar a sua eterna admiração por Picasso.

De 1921 a 1935

Nos anos decorrentes ao seu regresso, participa ativamente em jornais como Diário de Lisboa e Diário de Notícias. Em 1925, escreve o romance Nome de Guerra e publica, em 1926, o artigo A questão dos Painéis, a história de um acaso, de uma importante descoberta e do seu autor. Em 1927, parte para Espanha, vivendo em território espanhol até 1932.

Em Madrid, procura rodear-se das gentes mais intelectuais, frequentando regularmente tertúlias realizadas no Café Pombo. Durante os anos seguintes, escreve para El Uno, tragédia de la Unidad, que dedica à sua futura mulher, Sarah Affonso. Estabelece-se também enquanto artista no ramo da arquitetura, decorando murais e fachadas.

Casa-se com Sarah Affonso em 1934 e em 1935 é pai do seu primeiro filho. Publica os Cadernos de Almada-Negreiros, Sudoestes, tentado abordar temas como a relação entre civilização e cultura, arte e política e indivíduo e coletividade. Colabora artisticamente com Pardal Monteiro através dos vitrais da Igreja Nossa Senhora de Fátima.

Do seguimento também do seu casamento, Almada Negreiros pinta Duplo Retrato (1935-36), celebrando o casal, e Maternidade (1935), celebrando a vida do seu filho José.

De 1936 a 1970

Em 1941, o Secretariado Nacional de Propaganda elabora a exposição Almada- trinta anos de Desenhos, vendo nesta oportunidade um momento de viragem para a sua obra: a aceitação pública da sua arte. Participa na 6ª e na 7ª Exposição de Arte Moderna, vencendo o Prémio Columbano, em 1942. Trabalha em cenários para a ópera Inês de Castro, de Ruy Coelho, e é ainda responsável pelas obras na Gare Marítima de Alcântara e Gare Marítima de Rocha do Conde de Óbidos.

Começar, por Almada Negreiros na Fundação Calouste Gulbenkian

Em 1946 vence o prémio Domingos Sequeira na I Exposição de Arte Moderna e Desenho e Aguarela. Em 1954 pinta a primeira versão de Retrato de Fernando Pessoa, para o restaurante Irmãos Unidos. Participa ainda na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian. Colabora com Pardal Monteiro a nível arquitetónico para a Cidade Universitária de Lisboa.

Em 1963 vê ser publicada a sua primeira monografia, em homenagem ao seu septuagésimo aniversário. Os seus anos seguintes decorrem com inúmeras encomendas e atividades diversas, dentro destas obras como: tapeçarias, gravuras em vidro acrílico e diversos cenários. Foi condecorado com o grau de Grande-Oficial da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de San’Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico, a 13 de julho de 1967.

Realiza, entre 1968 e 1969, o painel Começar, para o átrio da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa e faz a sua derradeira aparição no programa televisivo Zip-Zip, em julho de 1969.

Veio a falecer a 15 de junho de 1970, no mesmo quarto de São Luís dos Franceses, no Bairro Alto, em que falecera Fernando Pessoa.

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