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Comandante Pedro Ferreira: “Nós estamos cá para servir a população”

Nesta entrevista, dividida em duas partes, o Comandante dá a conhecer os desafios atuais de ser bombeiro em serviço público.

Foi aos 14 anos que Pedro Artur Cardoso Ferreira deu asas a um sonho que o perseguia desde pequeno: ser bombeiro. Começou a sua carreira em Alverca, onde passou 27 anos da sua vida e experienciou vivências que o marcaram até hoje. Alcançou o cargo de Chefe nos Bombeiros do Sul e Sueste (Barreiro), em 2013 e, em 2019, tornou-se 2º Comandante dos Bombeiros de Faro. Em maio, assumiu funções como Comandante dos Bombeiros do Montijo e tem objetivos muitos claros para o quartel: que o corpo de bombeiros do Montijo volte a ser uma referência para o distrito”.

Como chegou ao cargo de Comandante dos Bombeiros no Montijo?

Eu sou de Lisboa, a minha carreira começou nos Bombeiros de Alverca. Tive lá cerca de 27 anos e saí com o posto de subchefe. No entanto, fui morar para o Barreiro e eu entendo que uma pessoa tem de ser bombeiro no sítio onde mora. Cheguei lá ao posto de chefe e ainda estive uns bons anos, mas, entretanto, um amigo meu, que era comandante dos Bombeiros Voluntários de Faro, convidou-me para ser segundo-comandante e ajudá-lo a pôr a casa em ordem.

Fui para lá e estive lá dois anos e pouco até que alguém me contactou e me desafiou a vir para os Bombeiros do Montijo. Entretanto, aguardei o comandante Américo sair de funções, o que aconteceu em janeiro. Em fevereiro, comecei a falar com a Direção, apresentei-lhes um projeto e a minha visão para o Corpo de Bombeiros, parecido com o que estava a implementar em Faro.

Não conhecia ninguém da Direção, mas gostaram do meu projeto e chamaram-me novamente para uma reunião, começámos a falar e a acertar detalhes. Depois a Direção entendeu que eu devia ficar no lugar de comandante. A escolha parte da Direção e não dos bombeiros ou de votações e a Direção acaba por ser a representação definida pelos sócios.

“Acho que era algo em que pensava desde que me lembro, era sonho de menino”

Quantas pessoas têm no corpo da Direção?

É difícil dizer números exatos porque são membros diretivos, mas, por exemplo, na parte executiva, temos o presidente da Direção connosco diariamente. É uma pessoa que nos apoia muito e é muito bom que ele esteja cá porque tudo o que tenha a ver com a parte financeira é entregue à direção.

Convém sempre que haja pessoas que determinem para onde vão os fundos, os orçamentos e tudo o que tenha a ver com compra de equipamentos. A parte administrativa fica-lhe totalmente entregue, a parte operacional é toda comigo.

Na parte da Direção temos seis ou sete membros, depois temos mais na mesa da Assembleia, no Conselho Fiscal. É uma equipa muito grande, mas a cabeça de tudo é o presidente.

Há quantos anos exerce funções de bombeiro?

Há 36 anos. Comecei muito novo e costumo dizer que daqui a dez anos, com 46 ou 45 anos, reformo-me.

Por que razão quis ser bombeiro?

Acho que era algo em que pensava desde que me lembro, era sonho de menino. Morava em Lisboa e via os Sapadores de Lisboa e lembro-me que, desde miúdo, que queria viver aquilo. Nunca ninguém na minha família foi bombeiro e quando fui morar para a Cruz de Pau, não havia bombeiros na Amora (são recentes), então fui para os escuteiros, eu tinha de fazer qualquer coisa.

Quando me mudei para Alverca, ainda pensei em ir para os escuteiros, mas não me aceitaram. A sede era muito pequenina e eles não estavam a aceitar transferências. Entretanto, um amigo meu desafiou-me a me inscrever nos bombeiros. Eu devia ter 14/15 anos.

Antigamente a entrada era feita com 14 anos, aos 16/17 anos já estávamos a ir para os fogos. Por isso é que eu defendo que se devia ter acompanhamento psicológico na altura. Hoje, não é permitido entrares tão novo. Só se é bombeiro a partir dos 18 anos. Podes entrar mais cedo em formações e aprendizagem, como é no caso de uma Escola de Cadetes e Infantes.

Pedro Ferreira em serviço_DR

Este é um projeto novo que vamos implementar. A partir de outubro vamos abrir o quartel para Infantes e Cadetes. Crianças, a partir dos seis/sete anos que têm um conjunto de atividades aos fins-de-semana relacionadas com bombeiros.

Vão ter formação de primeiros-socorros, vão ter as formaturas e Ordem Unida, vão aprender a trabalhar com as mangueiras e carros, vão ter visitas de estudo. Vão começar logo de início para despertar o estímulo. Isto faz tudo parte do imaginário das crianças e nós queremos dar oportunidade de viverem esse mundo.

Os pais deixam cá os filhos e nós damos aquilo que podemos dar de formação para cada um. Acho que é um projeto muito interessante e aceitei logo sem reservas quando me apresentaram a iniciativa, desde que cumprisse todas as normas de segurança. Eu aceitei porque, de facto, existe um défice muito grande de voluntários nos Bombeiros.

Eu preciso de pessoas para trabalhar e não tenho, não tenho pessoas a inscreverem-se para vir para cá trabalhar.

“Porque é que há falta de bombeiros? Porque não há condições”

Porque é que existe falta de voluntários nos bombeiros?

Sabem quanto ganha um Bombeiro? Pouco mais do que o ordenado mínimo nacional. Poucos querem vir arriscar a sua vida pelo ordenado mínimo nacional. Temos muita falta de apoios, os bombeiros não têm subsídio de risco. A própria PSP não tem.

Não pensem que um bombeiro ganha muito, não é como um Sapador-Bombeiro em Lisboa que tem carreira de função pública. Aqui posso ter bombeiros a receber 700 euros e na Moita, por exemplo, ter bombeiros a receber 600 euros. Não há uma tabela salarial para os bombeiros. Será que uma pessoa quer vir para aqui, trabalhar das 8 da manhã às 18h e transportar pessoas para a fisioterapia ou ver mortos e feridos, serem muitas vezes mal tratados e ganhar pouco?

Somos muitas vezes mal tratados pelas pessoas que socorremos, acho que ninguém tem muita noção disso. Mal tratados porque demoramos mais tempo, porque ficam à espera mais de uma hora no hospital para virem para casa e muito mais. Não há muita gente que tenha paciência para isso. Ou é algo que nasce connosco e vamos desenvolvendo porque é uma paixão inerente ou as pessoas consideram muito aceitarem trabalhos em sítios que paguem mais.

O comandante e o irmão, também bombeiro de profissão_DR

Porque é que há falta de bombeiros? Porque não há condições. Somos, por volta de 460 corporações a nível nacional de Bombeiros, uma das maiores forças de proteção civil, em quem as pessoas confiam e o poder central, o governo, trata-nos mal. Quem nos apoia é, muitas vezes, o poder local através das Câmaras Municipais.

Se for através do Estado, mesmo com os subsídios que nos dão, não conseguimos dar resposta a tudo. Temos um Estado que aposta em todas as vertentes, menos nos Bombeiros. O investimento é todo feito nas outras forças de segurança, com equipamentos superiores ao nosso, mas nós ficamos esquecidos. Os subsídios que o Estado português dá, revela um desinvestimento muito grande nos Bombeiros nacionais.

Uma vez, acusaram-me de ter dado uma entrevista a favor do Presidente da Câmara Municipal, mas vejam, eu nem conhecia o Presidente pessoalmente naquela altura. Eu não posso é dizer que a Câmara Municipal e o poder local nos tratam mal quando não é verdade.

Eles são a nossa ajuda quando o Estado não é. Eu posso chegar ao pé do Presidente e pedir auxílio para equipamentos no quartel, apresentar o orçamento e ele apoiar-nos no máximo que consegue. Ajudou-nos, sob a direção do antigo comandante, a comprar um carro novo para combate florestal, são logo 150 mil euros. E era um carro usado.

Uma ambulância, equipada, custa na ordem dos 50 mil euros. Nós temos, neste momento, quatro ambulâncias. Duas ambulâncias sempre prontas para sair. Por exemplo, nós não temos descontos no combustível e, neste momento, os hospitais pagam-nos a 51 cêntimos por quilómetro. Este valor foi negociado há 8 anos atrás e vejam o preço do combustível hoje em dia.

O governo não quer mudar isto. Há um desinvestimento muito grande e garanto-vos que os bombeiros portugueses não aguentam muito mais tempo. Nós tempos corporações na iminência de fechar porque simplesmente não há dinheiro. Não há dinheiro para manter os quartéis abertos e se não for as Câmaras locais, independentemente do partido que seja, não tínhamos a ajuda que temos. É graças às Câmara Municipais, mas nem a todas infelizmente, que continuamos a sobreviver.

“Eu gostava de ter uma ambulância e um bombeiro para cada habitante, mas não consigo.”

Uma das coisas a que nos acusaram no Montijo foi da falta de socorro. Como em todos os comandos de bombeiros, os recursos são finitos. Se eu tiver quatro ambulâncias na rua, não consigo dar resposta imediata aos pedidos que vão surgindo. Provavelmente exige-se que venha ajuda de Alcochete, Moita ou Canha para conseguirmos dar resposta.

No Montijo, fizemos 1689 emergências. Tudo isto só no primeiro semestre. Os recursos são finitos, não conseguimos garantir ajuda imediata para todos. Temos 60 000 habitantes, numa área de quase 400 km², praticamente 1600 habitantes por km².

Eu gostava de ter uma ambulância e um bombeiro para cada habitante, mas não consigo. Mesmo numa estrutura profissional é difícil conseguir fazer tudo. Por exemplo, os Sapadores de Lisboa não conseguem dar resposta a tudo. Por isso é que existe um conjunto de corporações de bombeiros em volta para auxiliar e eles são profissionais.

Nós estamos cá para servir a população, mas quando não o conseguimos fazer não é por desleixe nosso ou porque simplesmente não nos apeteceu. Nós saímos ao minuto. Por isso é que existe preparação física e resistência nos nossos profissionais.

Leia a segunda parte da entrevista

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