“A primeira vez que atuei em público como Rosinha foi aterrador”

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Na segunda parte desta entrevista Rosinha recorda o início da carreira e os momentos mais marcantes. A cantora fala sobre a importância da relação com o público e sobre os objetivos para o futuro, com a certeza que este irá sempre passar por Pegões.

Achas que existem estereótipos associados à música pimba?

A música pimba não passa das nossas origens, da nossa música popular, das nossas raízes. É a nossa música tradicional reinventada, misturada e revirada, mas são os acordeões e os cavaquinhos. Temos as nossas raízes, o português e, no meu caso, o duplo sentido das palavras, mas não deixa de ser as nossas origens. Há quem goste e quem não goste, mas não vejo como um género menor ou maior, é um género de música tal como outro qualquer.

Não deixa de ser interessante às vezes as pessoas dizerem ‘ah não, não gosto’ ou ‘nunca ouvi’, mas depois quando ouvem estão a bater o pé e a marcar o tempo, o que quer dizer que a pessoa está a exteriorizar alguma coisa.

Não oiço esse género de música todos os dias, mas adoro. Se há um género que sei que consigo transmitir alguma coisa para outras pessoas é com o meu género de música sem dúvida nenhuma e tenho muito orgulho nisso.

Quais os momentos mais marcantes ao longo destes anos?

A primeira vez que atuei em público como Rosinha foi aterrador. Foi em Évora num pavilhão enorme e com um eco terrível. O pavilhão estava cheio e o eco continuava lá, era um espetáculo com vários artistas e pessoas da televisão. Quando foi a minha vez não conseguia perceber quando a música arrancava, quando era o refrão ou as introduções. Estive a cantar as três músicas sempre a contratempo, a música já tinha arrancado e eu só começava depois porque era quando ouvia. Pensei que as pessoas fossem odiar, mas estavam muito contentes e a bater palmas. Foi um momento terrífico da minha carreira, foi a minha primeira apresentação e foi o pânico geral.

Depois pela positiva, há uns anos fui a Toronto fazer uma participação numa rádio que tem dias e horários para todas as comunidades que lá vivem, inclusive os portugueses, e todos os anos fazem uma festa gigante, num parque enorme, e cada povo tem o seu espaço e palco.  

Fui atuar e depois de mim iam os Delfins. Na altura tinha um microfone com cabo no acordeão, pisei o cabo e partiu-se. O técnico foi ao palco e como não posso deixar morrer o tempo que tenho comecei a falar e a contar anedotas e o rapaz lá todo atrapalhado. Nisto começo a ver o vocalista dos Delfins com uma câmara de filmar, ele aproximou-se e ficou encostado a uma árvore com a câmara a apontar para mim, ficou ali até ao fim do concerto. Quando saí do palco fui para o meu camarim que era ao lado do deles, quando ia a passar o Miguel Ângelo chama-me para tirar uma fotografia porque tinha adorado o que eu tinha feito. Isto foi um dos momentos espetaculares.

A Rosinha interage muito com o público, até através das redes socias. É importante ter esse contacto próximo com as pessoas?

Sinto mais essa necessidade agora. Como toda a gente que trabalha neste meio artístico preciso de estar presente e divulgar o meu trabalho, mas é mais por mim também. Sinto falta das pessoas. Só consigo dar o que dou em palco porque recebo o que as pessoas me dão, recebo muito mesmo. Fazer quase 200 concertos por ano não é fácil, às vezes antes de subir ao palco estou de rastos, mas é só até subir, tal como os nervos, estou sempre enervada até subir, depois acaba a primeira música e já passou tudo.

Ainda ficas nervosa?

Sempre. Acho que quando deixar de sentir nervos já não tem piada e passo a estar ali só por estar, mas não sei porque nunca passei por isso. É o meu trabalho, quero sempre que corra bem, que as pessoas gostem e que consiga dar o que as pessoas estão à espera. Tento sempre cumprir, quando o meu pai faleceu fui fazer o concerto, estava nos Açores, mesmo nessas ocasiões menos boas tento fazer o melhor que consigo.

“Um dos meus maiores objetivos é continuar a subir um degrau de cada vez. É gravar mais um disco, ser aceite pelas pessoas mais uma vez, é continuar a manter-me”.

Falámos da Rosinha enquanto artista, mas quem inspira a Rosinha? Quem são os teus artistas preferidos?

Sou muito anos 80 e 90 porque a minha adolescência passou por aí.

Depois temos intérpretes e executantes de instrumentos em Portugal soberbos. Normalmente não costumo dizer quem são as pessoas que mais ouço porque ouço tudo e todos, mas há vozes que me transmitem mais. Independentemente do género de música e se as pessoas gostam ou não, acho que o Marco Paulo tem uma voz maravilhosa. Paulo de Carvalho adoro, Carlos do Carmo, Amália Rodrigues que até a falar a senhora arrepiava, a nossa Dulce Pontes e tantos outros. São vozes que me transmitem coisas, porque a música é isso, seja cantada ou executada a música é a arte de transmitir sentimentos ou impressões através de sons.

Guardas todas as lembranças que as pessoas te dão?

Sim. Há coisas que tive de tirar porque já não cabiam, eram sacas de farinha de 30 quilos, por causa da música ‘Eu Levo no Pacote’ e cartolinas, tantas cartolinas, já não tinha onde por. Tenho galos de Barcelos, tenho panos bordados, tenho sacos de pão, quadros, bonecos de peluche, tenho bananas de peluche, tenho tanta coisa que nem te sei dizer, precisava de um armazém para ter tudo exposto, tenho pratos com o meu nome, jarras, fotografias …

As pessoas são muito queridas. Sei de onde veio cada peça menos as colheres de pau que já não consigo. Tenho duzentas e tal colheres de pau, tenho um cesto de verga cheio, a maior tem dois metros e a mais pequenina dois centímetros.

Lembras-te da primeira vez que alguém te reconheceu?

Sim, foi no estrangeiro. Saí do hotel, fui andar um bocadinho e apareceram uns senhores portugueses a perguntar se eu era a Rosinha.

Quando saiu o meu primeiro disco achava que seriam as pessoas na faixa etária dos 50 para cima que iam brincar com as músicas e com os trocadilhos, mas rapidamente percebi que não, o que vim a perceber é que não há idades. Quando as redes sociais começaram em força, sendo eu mulher a cantar o género de música que canto e a dizer as brincadeiras que digo, sempre pensei que poderia ter mais comentários menos bons, mas essas mensagens são muito esporádicas felizmente.

Vês tudo o que te enviam nas redes sociais?

Vejo tudo. Ainda ontem à noite era duas da manhã e eu estava a responder. Vejo tudo, pode não ser no próprio dia porque recebo centenas de mensagens diariamente, mas depois vou atualizando e respondendo.

Quais são os objetivos para o futuro? O que é que ainda gostavas de fazer?

Neste momento são concertos.

A vida tem sido muito generosa comigo, não tenho pedido nada a não ser saúde, mas a vida tem me dado sempre alguma coisa. Saí dos bailes para os espetáculos sem fazer por isso e nos espetáculos estão sempre a acontecer coisas. O facto de ser aceite pelas pessoas, ser aceite pela comunicação social, ser convidada para projetos diferentes daquilo que faço, ser aceite por essas pessoas, são pequenas/grandes vitórias na minha vida e a nível pessoal.

Um dos meus maiores objetivos é continuar a subir um degrau de cada vez. É gravar mais um disco, ser aceite pelas pessoas mais uma vez, é continuar a manter-me. Conseguir um êxito ou ser conhecida por uma música é complicado, mas consegue-se, depois conseguires manter aquele nível com os discos seguintes é que é o objetivo. Não sou nada nem ninguém de especial, mas os degraus que subi gostava muito de conseguir preservar.

Sem nunca sair de Pegões?

Claro que não. A minha casa é Pegões, a minha vida é Pegões, amo aquilo. Sabes que entro em Pegões e é como se estivesse a entrar em casa, sou mesmo dali. Vá para onde for, esteja onde estiver, é só entrar em Pegões que volto a casa.

Primeira parte da entrevista aqui.

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