Rosinha: “Sou as minhas raízes, sou Pegões, sou o campo”

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É no estúdio de gravação, em Sarilhos Grandes, que encontramos a Rosinha, acompanhada do seu acordeão. Na primeira parte desta entrevista a cantora falou sobre a sua terra, a carreira na música e o novo disco, com boa disposição, sorriso no rosto e uns trocadilhos à mistura.

És natural do concelho do Montijo. Como foi a infância em Pegões?

Nasci na maternidade do Montijo, mas fui criada e continuo a viver em Pegões Velhos. Em miúda vinha ao Montijo com os meus pais ou os meus tios quando vinham fazer alguma coisa, mas não era regular, não existiam transportes como há agora nem as pessoas se deslocavam com a mesma facilidade. Quando eles vinham ao Montijo era dia de festa, ia logo para dentro da carrinha para vir à cidade.

Quando tinha 10 anos o meu pai trabalhava para uma empresa que fica atrás do atual Alegro Montijo, fui viver para aí dos 10 aos 14 anos. Era uma empresa de madeiras e tinha um muro enorme. Estávamos habituadas a Pegões, a subir para as laranjeiras, sentar nas árvores a comer fruta e a andar dentro da ribeira de Pegões a apanhar girinos. Vir para um local que era todo vedado com um muro altíssimo não foi bom. Coincidiu com o meu primeiro ano de telescola, fiz no Afonsoeiro, depois passei para o 7º ano e fui para o Montijo, para a Escola Secundária Jorge Peixinho, isto tudo com o complemento de aos 10 anos também ter começado a estudar música em Pegões e, uns anos mais tarde, passei para o Instituto de Música Vitorino Matono, em Lisboa.

Essa raiz do campo ainda é evidente na Rosinha artista?

A Rosinha é artolas, não é artista.

Não sei se consigo transmitir isso. Eu, Rosa Maria, sim. Vivo na casa onde cresci porque era um sonho que tinha. Nunca sai muito do local onde cresci, aos 14 anos os meus pais voltaram a ir viver para lá porque eu a minha irmã não queríamos estar ali e sempre estive por Pegões.

O meu sonho em adolescente era quando fosse adulta continuar a viver na casa onde cresci e consegui atingir esse objetivo. Sou realmente campónia, no sentido positivo da palavra, com muito orgulho. Adoro Pegões e tenho muitas saudades do Pegões antigo, que era cultivado e que toda a gente andava a trabalhar na rua e se conhecia. Não sou muito saudosista, mas confesso que tenho algumas saudades desse tempo em que passávamos pela estrada e conhecíamos toda a gente. Sou as minhas raízes, sou Pegões, sou o campo.

Não sei dizer se consigo transmitir o facto de ser do campo e gostar do campo, respirar campo, não sei se consigo passar isso para as pessoas, mas de qualquer forma Pegões vai comigo onde eu vá.

Sempre quiseste fazer carreira na música?

Não, nunca. Ia aos bailaricos, que maioritariamente eram animados por acordeonistas, e aí sim tinha aquele desejo e aquela vontade de ser eu um dia a estar ali e a conseguir fazer com que as pessoas se divertissem e dançassem uma noite inteira.

Foi a única coisa que sonhei um dia fazer e consegui, fiz isso durante 17 anos. Foi a única coisa que ambicionei, tudo o resto foi acontecendo, gosto do que a vida me vai dando.

Conheço o Páquito [Rebelo], o meu produtor do País Real, há muitos anos, desde a escola secundária. Ele também fazia bailes, mas a ambição era compor e produzir e a minha era cantar, tocar e estar com as pessoas. Ele acabou por deixar os bailes e dedicar-se à composição, passados uns anos começou a convidar-me para projetos, quando o acordeão começou a despertar alguns interesses nas pessoas e começou a entrar em muitos géneros musicais que não entrava. Fui sempre dizendo que não, até que em 2006 ele volta a aparecer numa matiné que eu estava a fazer e explicou a ideia que tinha.

Concordei e aceitei gravar o disco, aceitei porque o meu pai estava muito mal e eram os meus pais que ajudavam a carregar e descarregar a aparelhagem e passavam as noites inteiras à espera que acabasse o baile. Decidi experimentar, mas sem expetativas.

Vim gravar o primeiro disco, ‘Com a Boca no Pipo e o Dedo no Buraco’, em 2006 para ser dado a conhecer em 2007, foi disco de ouro assim muito rapidamente. Depois fui a um canal de televisão, apresentei uma música e foi disco de platina. Foi a curiosidade das pessoas por eu ser a primeira mulher a cantar este género de música e estar à vontade, penso eu.

Não há segredo nenhum, divirto-me imenso com o que faço e tento passar isso para as pessoas. A maior diferença da Rosinha para a Rosa Maria é que a Rosa Maria não veste saias curtas, visto saias muito raramente, a Rosinha só veste saias curtas e está sempre cheia de cor. Não há assim diferenças, não desempenho um papel, é obvio que não sou o boneco Rosinha sempre no meu dia-á-dia, mas a espontaneidade e o que as pessoas veem na Rosinha sou eu, não estudo um papel para ser aquela personagem, não me esforço para exercer aquilo que faço em palco, é o que sai na hora.

Além do acordeão tocas mais algum instrumento?

Não, só acordeão. Quando fui para a escola comecei a tocar acordeão de teclas, tinha 10 anos. Depois comecei a tocar acordeão de botões. Num teclado conheço as notas e sou capaz de tocar, mas o que adoro mesmo é o acordeão.

Consegues cantar as tuas músicas sem estar a tocar?

Muito dificilmente, mas sempre fui assim, até nos bailes.

Uma vez o Páquito pediu-me para vir gravar as vozes de umas quantas músicas dos primeiros discos. São músicas que canto há anos e que fazem sempre parte do alinhamento.

Não trazia as letras e quando cheguei ao microfone empaquei, ele teve de ir pesquisar as letras. Se tiver o acordeão na mão já está tudo bem. Se for só um refrão sai, mas se pedirem uma letra inteira o mais provável é que não consiga.

“(…) a espontaneidade e o que as pessoas veem na Rosinha sou eu, não estudo um papel para ser aquela personagem”

Desde o primeiro álbum tens lançado um trabalho todos os anos. Como é que consegues manter esse ritmo?

Sim, 14 anos, 14 discos.

Esse trabalho não é meu, é do meu produtor. No início de cada ano juntamo-nos para dar as ideias para o novo trabalho, títulos ou uma piada que ouvi e que podia dar um bom trocadilho, coisas que oiço e anoto. Depois discutimos a ideia e o caminho que vamos seguir. Isso é um trabalho dele, ele escreve, compõe e manda-me já à viola o que fez.

Normalmente concordo, mas às vezes há frases que peço para serem alteradas ou pela minha dicção ou porque está picante a mais ou a menos, funciona assim, mas esse mérito não é meu. Em maio normalmente o disco está na rua, este ano foi exceção, devido à situação da pandemia acabou por sair no início de junho.

Achas que por seres mulher tens de ter um cuidado especial com as letras das músicas?

Sim, tenho uma linha que não posso ultrapassar sendo uma mulher. Falo de todos os assuntos que os homens falam, não devo é dizer da mesma forma que eles dizem porque sou mulher.

O novo disco, ‘Fica Sempre no Coador’, está a correr bem?

Sim. É o País Real que trata da distribuição e das vendas, só tenho essa perceção quando estou nos concertos e estou óculos nos olhos com as pessoas.

Já aconteceu várias vezes ter o disco pronto e estar com dúvidas entre duas músicas para a abertura e dar nome ao álbum. Se tenho concertos levo essas duas músicas e canto para as pessoas para ver a reação delas. É aí que tenho mesmo a reação das pessoas às músicas novas, com este disco ainda não foi possível.

Dizes que deixas de ser a Rosinha se tirares os óculos de sol. Porquê?

Deixo de ser para as outras pessoas, não é por mim que deixo de ser a Rosinha, é para as pessoas que me reconhecem.

Preciso dos óculos porque tenho sensibilidade à luz, preferia andar sem eles sinceramente. Em casa tento, mas depois tenho de pôr devido à sensibilidade à luz, é uma necessidade.

Há sempre histórias, as pessoas já acharam que tinha um olho de vidro, no entanto preciso mesmo dos óculos. Tenho noção que acabo por precisar mais por tantos anos usar os óculos escuros à noite porque a luz artificial não me incomoda, ou melhor, não incomodava. Se antes precisava só de dia agora preciso sempre.

Segunda parte da entrevista aqui.

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