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Tiago Correia: “Quando canto e escrevo, há a obrigação de levar o Montijo comigo”

O jovem fadista recordou, junto do Montijo On City, as suas referências de vida e a forma como o fado se tornou a sua casa.

Aos 25 anos, Tiago Correia, o jovem fadista do Montijo, encontra-se a “viver um sonho”. Cantor, mas também compositor das suas próprias canções, tem pisado palcos e afirmando-se como um artista que tem “estado no fado” e no fado quer ficar. Com o seu primeiro disco apresentado recentemente, Tiago Correia procurou homenagear os seus e apresentar-se ao mundo, com a “autenticidade e transparência” que revela nas suas composições.

Ao Montijo On City conta, nesta primeira parte da conversa, como iniciou o seu percurso pela música e quais as suas maiores referências de vida, presentes também no disco que esboça um autorretrato do artista.

Acabaste de lançar o teu primeiro disco. Qual é a sensação?

É boa, é uma sensação de vitória porque era um desafio que tinha há alguns anos. Foi algo trabalhado e muito pensado, demorei algum tempo na construção do reportório e dos temas a colocar no disco, mas é uma vitória porque me traz a sensação de um sonho concretizado. Este disco é também uma forma de me afirmar e dizer que pertenço aos fados, tenho esta grande paixão pelos fados e penso que sai numa altura indicada, perto dos meus 25 anos e com uma maior maturidade do que se tivesse gravado com 18 ou 19 anos.

Até este momento tão especial, trilhaste sempre o teu caminho pelo fado, mas como entrou o gosto pela música na tua vida?

A música sempre fez parte da minha vida, eu andava sempre a cantarolar e trautear. Sempre levei a música como uma herança pessoal. Num primeiro momento, cantava aquelas modas alentejanas porque ouvia dos meus avós, eles são as minhas referências de vida. Eu ouvia-os sempre a cantar e isso despertava, em mim, o interesse de cantar essas músicas que ouvia em casa.

Com 7 ou 8 anos, embora não cantarolando em público, era completamente apaixonado pelos Festivais da Canção, com aquelas músicas da década 60 e 70 de Portugal. Sabia de cor as músicas do Fernando Tordo, de cantar a Tourada e aquelas letras que eu adorava muito, embora não reconhecesse o poder das palavras. Hoje em dia reconheço completamente que era uma música de intervenção contra o Estado e muito bem, mas na altura eu simplesmente achava piada à forma como eles usavam e cantavam essas palavras.

Com 12 anos, o meu avô dá-me a conhecer o Fernando Farinha, que era um grande fadista. Eu comecei a cantar as músicas dele e atrevi-me a apresentá-las em público, aqui, no Montijo, em algumas coletividades. Como recebi muito carinho por parte das pessoas, que me conheciam desde criança, comecei a arriscar e tentar perceber o que era a linguagem do fado.

Tiago Correia está enraizado no fado desde pequeno e desde sempre que faz da música a sua casa.

Num primeiro momento apaixonei-me muito pela musicalidade do fado e não tanto pelos poemas, não os percebia bem. Mas depois, com os anos, fui compreendendo o poder dos poemas. Nesse primeiro ano em que me estreei, participo numa Canção Para Ti (2009). Esse foi o primeiro grande passo, vou aos castings e passo para o vivo e foi uma experiência única.

E sempre sentiste mais ligação com o fado do que com qualquer outro género musical?

Sim. Nós temos aquela sensação de que quando estamos fora, sentimos saudades de casa e eu, quando estou muito tempo fora do fado, sinto essas saudades de casa. Sinto-o desde criança. O que me comove mais e o que me liga também ao fado é saber que este é e será sempre o meu lar. Tenho a minha casa, na qual vivo com a minha família, mas tenho também a minha casa que é o fado e da qual não posso deixá-lo. Acompanha-me e vai acompanhar-me para o resto da vida.

Qual é a música da tua vida?

O fado, na sua história, é de origem popular e vem dos pregões do povo e da forma como o povo cantarolava e trauteava as canções, mas há três fados base que não têm autor e que são os que eram escutados pelos Pregões Populares de Lisboa: o Fado Menor, o Fado Corrido e o Fado Mouraria. Estes três fados fizeram surgir todos os outros fados que tiveram por base estas composições.

O Fado Menor é o meu de eleição. Embora a música não seja algo que se associe a um compositor, este fado vive da interpretação e improvisação que cada cantor conseguir dar e é um fado muito triste. Eu sou mais ligado aos fados tristes. Este é, sem dúvida, um fado muito especial. Depois, já tive oportunidade de fazer alguns fados que me marcam profundamente, como o tema para o meu avô. É das coisas que me marcaram mais porque ele é a minha maior referência.

Quais são as tuas maiores referências de vida?

A nível musical, tenho como maior referência o Fernando Farinha, que foi o primeiro fadista que ouvi. Depois tenho o António Rocha que é um fadista ainda em atividade e um dos maiores fadistas de sempre, com o qual tive o privilégio de gravar neste disco e depois Fernanda Maria e Amália Rodrigues. Tenho esses fadistas mais antigos como minhas maiores referências. No entanto, a minha maior referência de vida é o meu avô. Gosto sempre de o lembrar porque ele era muito importante para mim, também com a minha avó. Eu vivi muito a música com eles.

O meu avô era trompetista, durante muitos anos, na banda de Beringel e era apaixonante ver a forma como eles viviam a música. Foi a primeira grande ligação na minha vida e o que me fez sentir que o fado pertencia a casa.

O meu avô é a figura mais importante a nível musical e de vida, porque eu vivi sempre com eles até morrerem e, no fundo, quando digo que trago a herança comigo é deles que a carrego. Embora os meus pais tenham também dançado folclore e lembro-me deles a dançarem, mas dos meus avós relembro o cantarolar por casa e todas as estórias que ele sempre me contava e eu sempre ouvia com atenção. Tive sempre a consciência, desde os meus 12 anos, que eles não eram para sempre e isso impeliu-me a guardar bem o tempo em que os tinha perto de mim. E guardei e continua a ser um para sempre mais presente e uma honra tê-los tido comigo.

Sentes que o Montijo, enquanto tua cidade, sempre te recebeu de braços abertos?

Desde criança e isso é uma grande sorte porque sinto que o Montijo sempre me acolheu. Não fui só acolhido por as pessoas que vivem aqui, mas também pelo próprio município, que o fez da melhor forma possível e a quem sou grato também pelo apoio na parte discográfica e pelo concerto que me permitiram dar no Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida para apresentar o disco.

O fadista no concerto de apresentação do disco, no Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida_ créditos: @anarochanene

O Montijo e o próprio município sempre me acolheram e eu tenho sempre este carinho com a minha cidade que, tal como nos fados, me faz sentir aquela saudade de casa.

Embora às vezes venhamos aqui e não vejamos tanto movimento, mas é sempre agradável sentir-me bem na minha casa e, por isso, quando canto e quando escrevo, também há a obrigação de levar o Montijo comigo. Por este motivo escrevi um dos temas que está no meu disco, o Novo Fado do Montijo, para dedicar à minha casa.

Novo Fado do Montijo é uma homenagem à cidade e à tua vivência aqui. Qual foi a inspiração deste tema?

Eu comecei a escrever o poema em vários sítios. Comecei num local que me inspira bastante e que tem uma vista para o rio fascinante, aos quais escrevi os primeiros versos do poema. O resto da história fui construindo, sempre com o sentido de gratificação e homenagem. E começo o fado a dizer:

«Baila em minha voz e nos meus versos / a voz de um povo amigo, meu fiel irmão / Que dança pelos sonhos tão dispersos/ e mata a solidão com flores na tua mão.»

O Montijo é considerado a cidade da flor e eu faço muitas alusões à cidade, mas tento-o fazer de forma muito metafórica. Eu gosto de escrever uma poesia mais metafórica, que as pessoas possam associar a mais do que uma interpretação. E digo [neste tema] que o Montijo é esse local, são os bancos do jardim, é tudo o que tenho vivido e são os pescadores, a ribeirinha. Embora o faça sempre de forma muito metafórica, o Novo Fado do Montijo é a minha maior homenagem prestada a esta cidade.

O teu gosto por compor já vem de alguns anos. Como começou essa experiência?

Eu comecei a cantar mais regularmente com 12 anos e comecei a escrever com 15 anos, também ao lado do meu avô. Escrevia pequenas quadras simples sobre o que via e o que gostava. Lembro-me que o primeiro poema escrito por mim, tinha eu 15 anos, a minha avó já tinha falecido e eu vivi com muita força essa partida porque o meu avô era completamente apaixonado por ela. Foi algo absolutamente único e eu digo sempre que se o amor existiu em matéria física, foi neles os dois que o vi.

O artista junto dos avós, a quem tanto homenageia e relembra com carinho.

Eu vivi sempre, com muita intensidade esse amor deles os dois. Quando a minha avó partiu, eu experimentei escrever um poema sobre a estória de como eles se conheceram. Escrevi assim:

«No dia em que passei à rua onde moravas,
Lembrei os dias belos que nós ali passámos.
Quando olhavas para mim, com vergonha, não paravas
Até que um certo dia, os dois lá nos falámos.

Bastou-me dizeres olá que logo me encantei
Com essa voz tão linda que usavas para cantar.
Tão gira e sorridente, eu logo te falei
Que me ias ensinar a usar o verbo amar.

E hoje recordamos os tempos de criança
Em que íamos para o parque brincar e namorar.
Por isso assim escrevi, em jeito de lembrança,
Os versos que aqui estão, que fiz para te cantar.»

Este foi o primeiro poema que eu escrevi e a primeira experiência que tive com poemas. Escrevi este poema para o meu avô como se fosse dele para a minha avó. Depois, fui escrevendo vários poemas ao longo da vida. No entanto, eu acho que existem dois Tiagos na escrita. Existe um Tiago muito mais simplificado e com palavras muito fáceis e simples de entender ao ouvido, marcado pela presença do meu avô; e um Tiago muito mais complexo e reflexivo nas palavras que escreve, que veio depois do meu avô falecer.

Os tempos da minha licenciatura foram tempos nos quais perdia muitas aulas a compor e a escrever poemas. Eu sempre tive esta paixão pela escrita. No entanto, era uma escrita mais simples e sobre o meu quotidiano, um tempo marcado pela presença do meu avô ainda.

No teu percurso de vida, como entrou o gosto por Comunicação Social?

Foi pela palavra e pelo próprio desejo de querer compreender o mundo. Comunicação Social foi fundamental nesse sentido. Sou grato a tantos professores que me abriram portas para uma maior compreensão de como tudo funciona por sistemas e carece de nós a capacidade de nos posicionarmos, ou não, num determinado sistema, percebendo que não há uma verdade absoluta e que existem vários caminhos que podemos seguir. Ensinou-me também que podemos mudar de caminho ao longo da nossa vida, nada é obrigatório e nada tem de ser tão linear.

Comunicação Social veio pelo meu gosto em jornalismo, mas também serviu como um abrir de olhos para perceber que o jornalismo nos encaminha para um único lado e que nós temos de compreender a existência de outros meios. A palavra é importante, compreender o sistema através da parte auditiva, visual e escrita foi do que mais aprendi em Comunicação Social, mas também me ensinou que o meu caminho nesse sentido podia ser outro que não o jornalismo.

Enriqueceu-me toda essa experiência de compreender a palavra e a ação humana. Eu trouxe tudo o que podia da minha licenciatura e Comunicação Social foi crucial. Sem ela, eu não conseguia estar aqui a ter esta conversa tão mais simplificada e com tanta facilidade no meu discurso e na forma como quero transmitir as minhas ideias. Abriu-me os horizontes para ser mais frontal e direto no que pretendo dizer. Eu devo ao meu curso e a todos os meus professores tudo porque me deu uma compreensão do mundo que não tinha.

Escrever sobre o mundo nem sempre é fácil. Nem sempre pode ser da concordância de todos, mas é a minha concordância e eu tenho que me respeitar a mim para compreender o mundo à minha maneira porque todos nós temos a nossa leitura.

Com este álbum, qual era a mensagem que pretendias passar?

A mensagem parte de um poema que o Mário Rainho me escreveu quando eu era criança, que foi o poeta que escreveu o tema E Decididamente. E quando eu comecei a pensar na conceção do disco em 2018, eu levava já, na bagagem poética, um tema que é a Rua da Rosa, a rua em que trabalho no Forcado em Lisboa, e onde tenho vivido tantas estórias. Um dia decidi escrever sobre essa rua e foi o primeiro tema que gravámos em estúdio, sempre em mente de que existiam outros e existia esse poema do Mário Rainho.

Ao longo do percurso em que fomos organizando o disco, pensávamos sempre nessa linha do E Decididamente. E o que é E Decididamente? É tudo. É dizer que, ao longo destes anos todos, tenho estado no fado e é no fado que quero ficar. Algo que aprendi com os fadistas mais antigos é que todos criaram uma obra e eu sempre me quis distanciar de cantar apenas o reportório dos outros. Eu quis tentar sair dessa lógica e cantar fados mais antigos, mas também com letras minhas e que fizessem sentido para mim.

E Decididamente, é uma forma também de me redescobrir através de novos poemas e novas composições. E Decididamente, sou fadista.

Foi uma forma de me apresentar ao mundo e permitiu-me abrir horizontes para, nos discos futuros, dizer tudo aquilo que penso e que procuro homenagear e referenciar. Mas neste disco, permite-me dizer “Eu sou o Tiago Correia e decididamente sou esta pessoa”. Vocês podem ouvir isso através das palavras e através das músicas. Estas são as minhas abordagens e é até aqui que vou em termos de baladas e é até aqui que vou em termos poéticos.

Daqui para a frente, será uma construção e uma linha de reflexão sobre o mundo, sobre o que admiro e gosto. Há muitas ideias na minha cabeça sobre o que se segue, mas este disco é a minha forma de me apresentar ao mundo e dar a conhecer quem sou sentimentalmente, humanamente, criticamente, com todas as raízes e com a minha forma de referenciar sempre os que me pertencem, de onde venho e onde estou para chegar até aqui.

Foi a forma mais simples de me apresentar, com as minhas estórias e feitos, através da música ao mundo.

O mais recente alcance de Tiago Correia: o seu primeiro disco, composto de originais da autoria do jovem fadista.

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