Travessa João de Deus: o poeta e pedagogo inovador

João de Deus foi um eminente poeta lírico e pedagogo, considerado, por muitos, inovador na sua escrita.

João de Deus de Nogueira Ramos, mais conhecido por João de Deus, nasceu a 8 de março de 1830, em São Bartolomeu de Messines. Era filho de Isabel Gertrudes Martins e de Pedro José dos Ramos, modestos proprietários que habitavam naquela cidade. O seu pai era também comerciante e conhecido, à época, por todos naquela localidade.

Proveniente de uma família grande, sendo o quarto de 14 irmãos, João de Deus nunca viu, com grande facilidade, uma situação socioeconómica que lhe permitisse perseguir uma carreira universitária. Porém, desde jovem, que se empenhava em aprender mais, tendo estudado latim na sua terra natal e ingressado posteriormente no Seminário de Coimbra.

Cedo percebeu que não tinha vocação para a vida eclesiástica e, por este motivo, ingressou na Universidade e Coimbra com 19 anos para estudar Direito. O seu percurso académico foi tudo menos brilhante, uma vez que rapidamente compreendeu a sua maior paixão pelas belas artes à ciência do direito. Envolvido na vida boémia universitária, o poeta secundarizou os seus estudos, tendo-se apenas formado dez anos depois, a 13 de julho de 1859.

Logo no ano de ingresso à Universidade, João de Deus começou a desenvolver e aperfeiçoar os seus dotes líricos, apoiando o seu ganha-pão em pequenos versos que circulavam em manuscritos pelas ruas de Coimbra. Os modestos rendimentos que recebia permitiam-lhe continuar, ainda que numa parca condição de subsistência. De 1851, conhecem-se obras como A pomba e a Oração – obra eleita e reconhecida por muitos, tendo sido publicada na Revista Académica em 1855.

Permaneceu pela cidade nos anos que lhe seguiram ao percurso académico, mas os seus recursos financeiros nem sempre foram os melhores. Entre a ajuda de amigos e condiscípulos, ia publicando as suas obras na imprensa coimbrã da época, como, por exemplo, na Estrela Literária, na Ateneu e no Instituto de Coimbra.

A sua reputação enquanto poeta lírico foi crescendo a largos passos, tendo inclusive sido aclamado por poetas como Antero de Quental. Aliando a advocacia enquanto profissão e a poesia enquanto paixão, João de Deus marcou a década de 60 por uma forte aposta em poesia satírica, das quais se destaca A Iata e A Marmelada (ambas de 1860).

Em 1862, aceita um convite para ir trabalhar em terreno Alentejano a fim de colaborar como redator do periódico O Bejense. O seu desencanto pela advocacia levou-o a criar raízes no jornalismo, tendo colaborado em diversos periódicos da imprensa regional do sul de Portugal. Permaneceu em Beja até finais de 1864, ano em que regressou à sua terra natal.

Na sua estadia em São Bartolomeu de Messines, João de Deus continuou a colaborar ativamente com a imprensa regional, tanto do Alentejo como a algarvia Folha do Sul. Porém, em 1868 opta por se mudar para Lisboa e instalar-se pela capital. Aqui, viveu tempos marcados por tertúlias e privações constantes. Conseguia os seus rendimentos através de algumas traduções, escritas de sermões e hinos para cerimónias religiosas e colaborações literárias variadas.

Tempos mais tarde, João de Deus viria a ser eleito como deputado às Cortes, concorrendo de forma independente pelo Círculo de Silves. Saiu vitorioso das eleições e prestou juramento nas Cortes a 18 de maio de 1868, mas a sua passagem pelo parlamento seria curta e conturbada.

A sua estabilidade pessoal, ganhou-a ao casar com Guilhermina das Mercês Battaglia, mulher de boa famílias. Deste casamento, nasceram Maria Isabel Battaglia Ramos, José do Espírito Santo Battaglia Ramos, que vira a ser visconde de São Bartolomeu de Messines, João de Deus Ramos, que continuaria a obra pedagógica de seu pai, e Clotilde Battaglia Ramos.

Estes tempos de estabilidade permitiram ao poeta dedicar-se, com empenho, à publicação sistemática de obras poéticas e dramáticas. Foi neste período que publicou Ramo de flores (1869), considerada uma das suas melhores obras poéticas. Eram marcadas por uma narrativa ultrarromântica e reconhecidas como uma fase inicial de inovação literária. As suas obras foram aclamadas por muitos, selecionadas e organizadas, inclusivamente, por nomes como José António Garcia Blanco e Teófilo Braga.

Um homem de fortes ideias e crenças religiosas. Afirmava-se como socialista sem precedentes. Foi desta forma que, em 1876, após a morte de António Feliciano de Castilho e a decadência do Método de Ensino de Português de Castilho, que o poeta envolve-se ativamente em campanhas de alfabetização, escrevendo a Cartilha Maternal, um novo método de ensino da leitura, que o levou a ficar conhecido como um grande pedagogo.

Este método, considerado como inovador para a época, foi aprovado como o método nacional de aprendizagem da escrita da língua portuguesa. Tal foi o reconhecimento recebido pela inovação e contributo para a língua portuguesa ao ponto de João de Deus ser nomeado “Comissário Geral da Leitura”. Para além da figura exímia e popular enquanto poeta, foi também um grande pedagogo português.

Várias foram as homenagens concedidas ao famoso poeta. Ainda em vida, foi agraciado com grã-cruz da Ordem de Santiago da Espada e por todo o país foram realizadas iniciativas comemorativas.

João de Deus veio a falecer aos 65 anos, de uma lesão cardíaca, no dia 11 de Janeiro de 1896, na sua residência. Várias foram as homenagens prestadas à memória do poeta. Ruas, escolas, calçadas, por todo o país se relembra a memória desta figura célebre.

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